Fundado em 1982, o Bar Bassiló tornou-se um verdadeiro ícone em Armação de Pêra, sendo hoje considerado o bar mais antigo da vila.
À frente do projeto está José, mais conhecido em Armação de Pêra por “Zé de Angola”, figura incontornável da comunidade local, que ao longo de mais de quatro décadas conciliou a vida de empresário da noite com o futebol, primeiro como jogador e depois como treinador do Armacenenses.
Tudo começou por ser uma casa de família. O seus pais e avó moravam na parte debaixo do edifício, mas houve uma altura que passaram para o piso de cima. Foi nesta altura que passou a responsabilidade para José, a irmã e o cunhado, onde tomaram a liberdade de transformar o espaço num bar.
A escolha do nome “Bar Bassiló” tem raízes curiosas, ligadas a uma figura popular da terra, o pescador Paulo Vieira, conhecido pelas suas viagens às grutas e pelas sardinhadas em praias acessíveis apenas de barco. Durante esses momentos, animava os turistas com uma cantiga repetida vezes sem conta.
«Era sempre a cantar. Ele cantava o Bar Bassiló, tchá, tchá, tchá, com duas garrafas e colheres de dente. E aquilo tornou-se tão típico que, quando abrimos o bar, o nome surgiu naturalmente.” – recorda José.
Hoje, passados 43 anos, o Bar Bassiló mantém-se como uma referência. O espaço é também conhecido pela sua coleção de cachecóis, trazidos por clientes de todo o mundo.
«Eu sempre fui desportista, joguei no Armacenenses e também fui treinador. No início comecei a pôr alguns cachecóis, e depois os turistas lembravam-se e traziam-me um da terra deles. E assim foi crescendo a coleção que hoje cobre o bar», recorda-se José.
Na altura em que abriu o bar, havia mais uns quantos, tal como «o Bulldog, havia outro lá na Rua João II, o outro na transversal, o Underdog», mas passado cinco anos abriram muitos mais.
O empresário descreve uma época em que a noite em Armação de Pêra era mais disciplinada e segura, em contraste com os dias de hoje.
«Prefiro o antigamente, porque havia mais amizade, mais respeito. Hoje é tudo mais complicado. Antigamente, raramente havia problemas. Agora é diferente, as mentalidades mudaram, as tecnologias também mudaram as pessoas», contou José em entrevista à Junta de Freguesia.
Na década de 1980 e 1990, a vila chegou a ter várias discotecas – Albatroz, Casino, Cottage – algo que desapareceu por completo.
«Naquele tempo, os bares fechavam às duas da manhã e depois a alternativa era ir para a discoteca. Hoje está tudo misturado: pastelarias abertas até às quatro, bares até às quatro. Perdeu-se a diferença entre espaços», lamenta Zé de Angola.
Os tempos eram outros.
«Nós tínhamos a nossa maneira de nos divertirmos. Bebíamos os nossos copos, divertíamo-nos na parte da alegria, de nos juntarmos num bar, convívio. Hoje as coisas são diferentes. Portanto, os tempos são outros, as mentalidades também são outras, e a reação das pessoas também é», referiu.
Com todas as diferenças ao longo dos anos, conclui que prefere o antigamente, pois havia mais disciplina, mais amizade, respeito, segurança e compreensão, em que raramente havia confusão.
Apesar das mudanças e desafios, Zé de Angola sente orgulho no caminho percorrido.
«Depois de 43 anos, claro que me sinto velho, mas também muito orgulhoso daquilo que construí. Sempre respeitei todos e fui respeitado. Este bar é parte da história da Armação», afirmou com um sorriso.
O seu envolvimento no futebol local ajudou a consolidar essa ligação à comunidade: foi capitão, treinador e campeão distrital pelo Armacenenses nos anos 90, lado a lado com o então presidente Fernando Santiago, pessoa com quem tinha muita ligação.
Se pudesse descrever o seu bar, Zé de Angola diria que é uma casa familiar. Foi sempre a imagem que passou no bar, apesar de haver muitos juntamentos, danças e músicos.
«Pessoas que vêm para cá, ir para o seu clube, conversar, dançar, e sempre foi isso que, até ao dia de hoje, tem mantido sempre um bar mais familiar, não é de muitas confusões, muitos ajuntamentos», reflete José.
Em relação ao futuro, pensa que quando já não puder mais, volta a ser uma casa como antes fora.
«Começou comigo e acaba comigo», afirma firme,
E o fim já se vai pensando.
«Já penso(…) Infelizmente, a idade não perdoa e os problemas de saúde também vão sendo difíceis», concluiu.
Mais do que um bar, o Bassiló é hoje e sempre foi um símbolo de memória coletiva da vila, ponto de encontro de gerações de locais e turistas, e testemunho vivo das transformações sociais, culturais e económicas da região.

